quinta-feira, 27 de setembro de 2007

feriado=Gosto Superior(vegetarianos)

"Faze aos Outros..."

Não tenho dúvida de que a suspensão do consumo de ani­mais faz parte integrante do destino da raça humana em seu aperfeiçoamento gradual.
Thoreau

Sinto que o progresso espiritual requer, em uma determi­nada etapa, que paremos de matar nossos companheiros, os animais, para satisfação de nossos desejos corpóreos.
Gandhi

A cada ano matam-se 134 milhões de mamíferos e 3 bilhões de aves para alimento nos Estados Unidos. Mas poucas pessoas fa/em qualquer ligação consciente entre esta matança e os pro­dutos cárneos que aparecem em suas mesas. Nos anúncios de lolcvisão um palhaço chamado Ronald McDonald diz às crianças iiic o hamburger nasce nas "formas de hamburger". A verdade não é tão agradável — os matadouros comerciais assemelham-se ;i visões do inferno. Animais a berrar são golpeados por açoites e malho, por choque elétrico e por armas de concussão. Eles são, rnlão, suspensos pêlos pés e transportados através das fábricas da morte em sistemas condutores mecanizados. Muitas vezes, ainda vivos, suas gargantas são furadas e sua carne cortada. Des­crevendo suas impressões de uma visita feita a um matadouro, o 1'íinipeão de ténis Peter Burwash escreveu em seu livro A ViWtarian Primer. "Não costumo me amedrontar muito facil­mente. Eu jogava hóquei até quando me fizeram engolir metade dos meus dentes. E sou altamente competitivo em quadra de iniis, mas aquela experiência no matadouro aterrorizou-me.
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Quando saí de lá, eu sabia que nunca mais maltrataria um ani­mal novamente! Eu conhecia todos os argumentos fisiológicos, económicos e ecológicos que apoiavam o vegetarianismo, mas foi a experiência direta da crueldade do homem para com os animais que estabeleceu o verdadeiro alicerce de meu compro­misso com o vegetarianismo".

A Grécia e Roma antigas
Considerações éticas sempre têm impelido muitas das maio­res personalidades do mundo a adotarem uma dieta vegetariana. Pitágoras, famoso por suas contribuições à Geometria e à Mate­mática, disse: "Oh! queridos companheiros, não profaneis vos­sos corpos com alimentos pecaminosos. Nós temos milho, temos maçãs que curvam os galhos com seu peso e uvas crescendo nos vinhedos. Há ervas de sabor doce e legumes que podem ser co­zidos e abrandados no fogo, nem se nos nega o leite ou o mel perfumado com menta. A terra proporciona um suprimento exu­berante de riquezas, de alimentos inocentes e oferece-nos ban­quetes que não envolvem derramamento de sangue ou matança; somente as feras satisfazem sua fome com carne, mas nem todas elas, pois os cavalos, o gado e as ovelhas subsistem de grama". O biógrafo Diógenes conta-nos que Pitágoras comia pão e mel pela manhã e legumes crus à noite. Ele também pagava aos pes­cadores para que estes jogassem sua pesca de volta ao mar.
Em um ensaio intitulado "Acerca do Consumo da Carne" o autor romano Plutarco escreveu: "Podeis realmente perguntar que motivo tinha Pitágoras para se abster de carne? De minha parte não entendo através de que acidente e em que estado de espírito foi que a primeira pessoa sujou sua boca com sangue e levou seus lábios em direção à carne de uma criatura morta, pôs mesas de corpos mortos e em decomposição e ousou chamar de alimento e nutrição as partes que pouco antes haviam bramido e chorado, movimentavam-se e viviam. Como poderiam os olhos suportar a matança em que as gargantas eram perfuradas, a pele
esfolada e os membros arrancados? Como poderia seu nariz aguentar o fedor? Como é que a contaminação não ensombrava seu paladar, o qual fazia contato com as misérias dos outros e sorvia os sucos e os soros de feridas mortais? Certamente não são leões e lobos que comemos para defesa pessoal; pelo con­trário, ignoramos estes e chacinamos criaturas dóceis e inofen­sivas, sem presas ou dentes para nos atacar. Por um pouco de carne tiramo-lhes o sol, a luz e a duração de suas vidas a que elas têm direito por seu nascimento e por sua existência".
Ele, então, lançou este desafio aos carnívoros: "se afirmais ser naturalmente projetados para esta dieta, então primeiramen­te matais vós mesmos aquilo que desejais comer. Entretanto, lazei isto somente através de vossos próprios recursos, sem aju­da de um cutelo, de um cacete ou de qualquer tipo de machado".

Da Vinci, Rousseau, Franklin...
Leonardo Da Vinci, o grande pintor, inventor, escultor e poeta da Renascença, epitomou a abordagem ética ao vegetaria­nismo. Ele escreveu: "Aquele que não dá valor à vida não a me­rece". Ele considerava os corpos dos comedores de carne como sendo locais de sepultamento", sepulturas dos animais que eles comiam. Seus livros e anotações estão cheios de passagens que mostram sua compaixão pelas criaturas vivas. Ele lamentava: "Números incontáveis destes animais terão seus filhos arranca­dos deles, rasgados e barbaramente trucidados".
O filósofo francês Jean Jaques Rousseau era um defensor da ordem natural. Ele observou que os animais carnívoros são geralmente mais cruéis do que os herbívoros. Ele concluiu, por­tanto, que uma dieta vegetariana produziria uma pessoa mais compassiva. Chegou mesmo a aconselhar que não se permitisse iiic os açougueiros testemunhassem no tribunal ou que se sentas­sem no júri. Em The Wealth ofNations (A Riqueza das Nações) o economista Adam Smith proclamou as vantagens de uma dieta ve-iriariana. "Pode-se, de fato pôr em dúvida se a carne dos açougues
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é, de alguma maneira, necessária à vida. Grãos e outros legu­mes, juntamente com o leite, queijo e manteiga, ou óleo, caso não se tenha manteiga, propiciam a dieta mais completa, saudá­vel, nutritiva e revigorante. Em nenhum lugar o decoro impõe que alguma pessoa deva comer carne". Considerações semelhan­tes motivaram Benjamin Franklin a se tornar um vegetariano aos dezesseis anos de idade. Franklin lucrou daí "maior pro­gresso dessa maior clareza de pensamento e mais rápida com­preensão". Em seus escritos auto-biográficos ele chamava o consumo de carne de "assassinato imotivado". O poeta Shelley era vegetariano convicto. Em seu ensaio "Em Defesa da Dieta Natural", ele escreveu: "Que o defensor da alimentação animal seja forçado a uma experiência da conveniência da mesma e, como recomenda Plutarco rasgue, um cordeiro vivo com seus dentes e, mergulhando sua cabeça nos órgãos vitais deste, mate sua sede com o sangue fumegante... então, e só então, ele teria alguma lógica". O interesse de Shelley pelo vegetarianismo co­meçou quando ele era estudante em Oxford, e ele e Harriet, sua esposa, adotaram a dieta logo após o seu casamento. Em uma carta datada de 14 de março de 1812, sua esposa escreveu a uma amiga: "Nós abandonamos a carne e adotamos o sistema pitagorista". Shelley, em seu poema Queen Mab, descreveu um mundo utópico onde as pessoas não matavam animais para se alimentar.

...agora de não mais
Mata o cordeiro que o olha com confiança, E brutalmente devora sua macerada carcaça, A qual, ainda implorando da natureza a vingança, Atiça todos os humores pútridos de sua devassa: Todas as paixões daninhas, todas as vãs crenças, Ódio, desespero e desprezo em sua mente, Os germes da miséria, morte, crime e doenças.

O escritor russo Leon Tolstoy tornou-se vegetariano em IHX5. Abandonando o esporte da caça, ele defendia o "pacifis-nio vegetariano" e era contrário a que se matassem mesmo as me­nores entidades vivas, tais como as formigas. Ele sentia haver uma progressão natural da violência que conduzia inevitavelmente a sociedade humana à guerra. Em seu ensaio "O Primeiro Passo", Tolstoy escreveu que o consumo de carne é "simplesmente imo-i;il, visto que envolve a execução de um ato contrário a conduta moral: matar". Tolstoy acreditava que, ao matar, "o homem su­prime em si mesmo, desnecessariamente, a capacidade espiritu-íil mais elevada — a da compaixão para com os seres vivos como fie — e, ao violar seus próprios sentimentos, torna-se cruel".
O compositor Richard Wagner acreditava que toda vida era sagrada. Ele via no vegetarianismo a "dieta da natureza", a qual poderia salvar a humanidade das tendências violentas e ajudar-nos a retornar ao "Paraíso há muito perdido".
Em muitas ocasiões de sua vida, Henry David Thoreau foi um vegetariano. Embora sua prática fosse, na melhor das hipó-lf sés, irregular, ele reconhecia suas virtudes. Em Walden ele es-uvvcu: "Não é uma vergonha que o homem seja um animal f arnívoro? É verdade que ele pode viver, e vive, em granda me-ilida, da captura de outros animais; mas isto é uma forma mise-lávcl — como qualquer pessoa que pegar coelhos numa armadilha ou matar cordeiros poderá aprender — e será consi­derado um benfeitor de sua raça aquele que ensinar às pessoas a st- restringir a uma dieta mais inocente e saudável. Qualquer que seja minha prática, não tenho dúvida de que a suspensão do con­sumo de animais faça parte integrante do destino da raça huma­na em seu aperfeiçoamento gradual, da mesma forma que as li ihos selvagens deixaram de ser antropófagas ao entrarem em mulato com as mais civilizadas".
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O Século XX
Desnecessário se faz dizer que Mohandas Gandhi, o grande apóstolo da não-violência do Século XX, era vegetariano. Seus pais, sendo devotos hindus, nunca lhe deram carne, peixes ou ovos. Todavia, sob a regulação britânica, houve uma grande investida contra os princípios milenares da cultura indiana. De­baixo de tais pressões, muitos indianos passaram a adotar os hábitos carnívoros do Ocidente. Mesmo Gandhi foi vítima dos conselhos de alguns de seus colegas de classe que instavam a que ele comesse carne, pois ela aumentaria sua força e coragem. Mas, depois, ele assumiu novamente uma dieta vegetariana e escreveu: "É necessário que se corrija o erro de que o vegetaria­nismo nos tenha tornado fracos de mente ou passivos ou inertes de ação. Não considero a alimentação carnívora necessária em qualquer etapa". Ele escreveu cinco livros sobre vegetarianis­mo. Sua própria dieta diária incluía germe de trigo, pasta de amêndoa, hortaliças, limões e mel. Ele fundou a Fazenda Tolstoy, uma comunidade baseada em princípios vegetarianos. Em seu livro A Base Moral do Vegetarianismo, Gandhi escreveu: "Eu considero a alimentação cárnea inadequada à nossa espécie. Er­ramos ao copiar o mundo animal inferior se somos superiores a ele". Ele percebia que os princípios éticos eram uma base mais sólida para a adesão a um regime vegetariano que as razões de saúde. "Sinto", afirmou ele, "que o progresso espiritual requer, em uma determinada etapa, que paremos de matar nossos com­panheiros, os animais, buscando satisfazer nossos desejos corpóreos".
O dramaturgo George Bernard Shaw tentou primeiramen­te tornar-se vegetariano aos 25 anos de idade. "Foi Shelley quem por primeiro abriu meus olhos para a selvageria de minha die­ta", escreveu ele em sua auto-biografia. Os médicos de Shaw avisaram-no de que a dieta iria matá-lo. Quando já estava velho, perguntaram-lhe porque ele não mostrava a eles o bem que a dieta lhe fez. Ele replicou: "Eu gostaria, mas eles já faleceram
anos atrás!" Certa vez, alguém lhe perguntou porque ele parecia tão jovem. "Não, eu não pareço", retrucou ele. "Aparento a idade que tenho. São as outras pessoas que parecem ser mais velhas do que são. Que pode você esperar de pessoas que comem cadáve­res?" Sobre a correlação entre o consumo de carne e a, violência na sociedade humana, Shaw escreveu:

Oramos aos domingos para que possamos ter luz Que guie nossas passadas na trilha que palmitamos; Estamos saturados de guerra, o conflito não nos seduz; Mesmo assim é dos mortos que nos fartamos.

H. G. Wells escreveu acerca do vegetarianismo em sua visão de um mundo futuro, A Modern Utopia. "Em todo o mundo da Utopia não existe carne. Costumava haver. Mas agora não pode­mos tolerar a ideia dos açougues. E, em uma população educada e com aproximadamente o mesmo nível de boa condição física, é praticamente impossível encontrar alguém que degole um boi ou um porco... Ainda posso recordar, em minha juventude, a alegria ao fechar o último matadouro".
O escritor Isaac Bashevis Singer, ganhador do prémio Nobel, lornou-se vegetariano em 1962, aos 58 anos de idade. Ele disse: "Naturalmente lamento agora que tenha esperado tanto, mas antes larde do que nunca". Ele julga o vegetarianismo muito compatí­vel com seu sistema místico de judaísmo. "Todos nós somos criaturas de Deus — é incoerente o fato de orarmos a Deus por misericórdia e justiça, enquanto continuamos a comer a carne dos animais que são mortos por nossa própria causa"... Embora aprecie o aspecto saudável do vegetarianismo, ele afirma muito claramente que a consideração ética é primária. "Mesmo que demonstrassem que comer carne faz bem para a saúde, ainda iissim eu certamente não a comeria".
Singer denota pouca paciência com as justificativas inte­irei uais para o consumo de carne. "Vários filósofos e líderes

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